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Press TV

In Uncategorized on March 3, 2011 by Elka Andrello

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Kathmandu é pop

In Revista TPM on February 17, 2011 by Elka Andrello Tagged: , , ,

Texto publicado na Revista TPM, em outubro de 2010

 

 

A fervilhante capital do Nepal é bem mais do que incensos, preces budistas e peregrinos

Toda sexta-feira à noite a mesma cena se repete: passo feliz da vida de salto alto ao redor da Grande Estupa de Boudha, bairro onde moro, no meio de monges, fumaça de lamparinas e incensos, rumo à pista de dança. Sexta-feira é o dia que Katmandu mais ferve, já que sábado é o único dia de folga na semana.

Katmandu é a capital do Nepal, uma cidade mágica, mistura de Salvador com Amsterdã. Bahia, porque aqui também tem todos os santos e aquele tempo próprio de fazer as coisas que o baiano tem e eu adoro. E Amsterdã, porque aqui tem gente do mundo todo, o tempo todo. As ruas estreitas de Thamel, bairro dos viajantes, são cheias de guest houses, cafés bacanas com wi-fi, livrarias, restaurantes, bares e…festas!

Vem para Katmandu quem quer se encontrar, se perder e morrer em paz. A cidade é a porta de entrada para todos os tipos de viagem: turistas que vêm conhecer a capital; aventureiros profissionais que buscam a conquista do Everest e das montanhas mais altas do mundo; refugiados tibetanos; monges que querem estudar em tradicionais monastérios; jovens do mundo todo que trabalham em ONGs; e pessoas que chegam até aqui para morrer.

Em Katmandu fica Pashupatinath, o templo hindu mais importante do Nepal e um dos mais sagrados do mundo. Cerimônias de cremação são conduzidas todos os dias à margem do rio Bagmati, ao lado de um templo de Shiva, o deus hindu da morte e do renascimento.

Além dos mantras
Difícil não gostar de um lugar que respira história e tradição e ainda tem rock’n’roll! E bandas de blues, jazz, ska, música sufi e DJs para todos os gostos. Incrível um país onde a rádio FM só foi liberada em 1990 ter uma cena musical variada. Toda noite tem música ao vivo. A noite começa cedo e oficialmente acaba à meia-noite. A polícia é bem rigorosa, fecha a balada e chega a prender os donos dos estabelecimentos que desrespeitam o toque de recolher. Para os que têm fôlego, os cassinos são legais e funcionam 24 horas por dia.

O Nepal faz fronteira com a China, fica entre a cordilheira do Himalaia e as florestas do norte da Índia. Exatamente aí, na fronteira com a Índia, Buda nasceu, em Lumbini. A cidade respira religião, em cada esquina há um templo. Tem também os templos de consumo, como lojas da Adidas e Pizza Hut, que ficam na avenida moderna da cidade, a Durbar Marg.

Tribos urbanas
E foi nessa avenida do burburinho que um elefante carregando uma bandeira nas cores do arco-íris puxou a Primeira Parada Gay do Nepal. O mamute gigante liderou uma massa de gays, lésbicas, transexuais e simpatizantes. Babado! Os transexuais estavam vestidos com roupas típicas de todas a etnias e castas que representam as mulheres nepalesas. Imagine que aqui é um escândalo beijar na boca em público. Assistir a uma parada como essa, na qual a alegria e o respeito deram o tom, serve de exemplo de liberdade de expressão para todo o mundo.

E eu, que não estou aqui só a passeio, me apaixonei pela cidade na qual sou espectadora de uma cena cultural que amadurece a cada dia e de tribos urbanas que aprendem a se expressar e a conquistar espaço e respeito.

* A paulistana Elka Andrello, 37, é videomaker e jornalista, mora há sete meses no Nepal, mas deixou o Brasil um ano antes para morar na Índia, com a filha de 2 anos, Grazi, hoje com 4. Ela conta suas experiências no blog Tashi Delek, no site da Tpm.

 

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Venerável careca

In Revista TPM on February 16, 2011 by Elka Andrello

Depois de questionar o envelhecimento, a doença e a morte como único futuro possível, a inglesa Diana Perry desceu do salto, raspou o cabelo,  morou 12 anos em uma caverna e fundou um monastério para mulheres pioneiro no mundo.

Por Elka Andrello, da Índia

No budismo, e em tantas outras religiões, as mulheres sempre foram tratadas como cidadãs espirituais de segunda classe. Mas Diane Perry nunca se conformou com essa diferença. Fã de Elvis Presley, clubes de jazz e salto agulha, a inglesa foi a terceira mulher ocidental a se tornar monja do budismo tibetano. Virou Tenzin Palmo e ficou mundialmente conhecida depois de passar 12 anos em retiro solitário em uma caverna no Himalaia – feito comum entre meditadores orientais, mas bem raro entre mulheres, sobretudo ocidentais. Hoje, aos 66 anos, com o aval do Dalai Lama, faz um trabalho pioneiro na formação de monjas mulheres e carrega o respeitável título de Jetsunma, que quer dizer venerável mestre.

A venerável nem sempre foi monja e muito menos careca. Filha de pai peixeiro e mãe dona de casa, Diane nasceu em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, em Hertfordshire, Inglaterra. Cresceu em Londres, namorou bastante, adorava moda e música. “Eu amava o Elvis Presley. Ele era extraordinário. Me tornar uma monja e abrir mão do Elvis foi a minha grande renúncia”, brinca.

Diane começou a questionar os porquês da vida na adolescência, procurou respostas em várias religiões e filosofias até chegar ao budismo.  Ela nunca se esquece do  dia em que, aos 13 anos, ao olhar para um ônibus lotado, perguntou-se: “Todas essas pessoas vão morrer. Antes disso, vão envelhecer e ficar doentes. Não há escapatória. A vida é sofrimento, é como estar num trem e saber que ele vai bater no fim. Como você pode se divertir nessa viagem sabendo que em algum momento o trem vai bater?”.

Era o início dos anos 60 e o budismo ainda não era popular no ocidente. Em busca de respostas, a jovem inglesa foi parar na The Buddhist Society, uma das mais antigas organizações da Europa. Lá, entrou em contato com as diferentes vertentes da religião. “Quando li os ensinamentos do Buda, vi que ele foi a pessoa que mais precisamente explicou o sofrimento e o caminho para além dele”. Em busca da iluminação, embarcou num navio para Índia em 1964.

O mestre

O coração romântico de Diane não ficou na Europa junto com os discos do Elvis. No navio, ela se apaixonou por um rapaz que, para seu espanto, a pediu em casamento. Ficou balançada com a proposta, mas perguntou-se o que realmente queria da vida. “Sabia que não era casar e ter filhos, mas me dedicar à vida espiritual”. E foi assim, aos 20 anos, que ela abriu mão do romance e, sem olhar para trás, desembarcou no Oriente. “A vida era muito simples nesse tempo, não tinha TV, telefones e carros eram raros. Os tibetanos tinham acabado de chegar, eles eram muito pobres e estavam traumatizados, tentando aprender a andar com as próprias pernas”.

Logo que chegou à Índia, Diana foi trabalhar como secretária e professora de inglês na escola para jovens lamas, a Young Lama’s Home School, na cidade de Dalhousie, no norte do país. No dia do seu aniversário de 21 anos, ela encontrou o homem que mudou a sua vida para sempre. Era o oitavo Khamtrul Rinpoche, um respeitado lama que fazia uma visita informal à escola. “Foi como se a parte mais profunda de mim se materializasse na minha frente”, explica. Ele se tornou seu mestre, a ordenou  monja, raspou seus cachos, a fez trocar as roupas comuns por vestes monásticas e lhe deu o nome de Drubgyu Tenzin Palmo.

Mas a vida no monastério do Khamtrul Rinpoche não foi fácil. A inglesa era a única entre 100 monges, todos homens. “A palavra ‘mulher’, em tibetano, tem um  significado próximo de ‘nascimento inferior’”, explica. “Os monges naturalmente temem as mulheres por causa do desejo deles. Mas não admitem isso, dizem que a mulher que é sedutora”, completa, e faz questão de observar que todas as escrituras budistas saíram das mãos de homens.“Sendo assim, não é uma surpresa que essa atitude misógina ainda prevaleça”, desabafa.

Foram os seis anos mais infelizes da sua vida. Discriminada, vivia isolada e, por ser mulher, não podia ouvir os ensinamentos mais profundos. “Durante esses anos, fiz o voto de alcançar a iluminação na forma de uma mulher, e não importa quantas vidas isso demore”, declara.

Frustrada, a monja se mudou para o Tayul Gonpa, um monastério de 300 anos em Lahoul, cidade no norte da Índia aos pés do Himalaia, fronteira com o Tibete. Foi uma fase feliz. Finalmente, ela teve tranquilidade para meditar e interagir com os moradores da comunidade. Sobrevivia com 5 libras por mês, mandadas pela sua mãe. Em 1976, em busca de silêncio absoluto para meditar, resolveu ir morar em uma caverna. “Naquela época me pareceu a coisa certa a fazer. Estava procurando um lugar quieto e barato”, diz, em tom de brincadeira.

Foi uma amiga monja quem lhe deu a dica sobre um local com  nascente de água por perto. Tenzin Palmo então juntou um grupo de amigos e foi escalar a montanha, que ficava bem atrás do monastério. Duas horas de subida depois, a quatro mil metros de altura e sob o efeito do ar rarefeito, ela encontrou o local que seria sua casa nos próximos 12 anos – os mais felizes da sua vida. Durante esse período, teve contato com pouquíssimas pessoas e saiu de lá raras vezes. Nos três últimos anos, viveu absolutamente isolada. E garante que nunca se sentiu sozinha, nem por um minuto.

Para se proteger do frio de até 35 graus negativos, fechou a entrada com tijolo e cimento. E também instalou porta e janela. A caverna, de 3 metros de largura por 1,80 de comprimento, era mobiliada com um pequeno fogão a lenha, uma caixa de madeira que servia como mesa e uma prateleira onde ficavam os textos sagrados. Nas paredes, fotos de deidades budistas. Além disso, a monja contava com um pequeno altar e uma tradicional caixa de meditação – móvel de madeira de 80 centímetros quadrados que foi a sua “cama” enquanto ali viveu. Durante todo esse tempo, Tenzin não se deitou. Nem por uma noite.

E assim, na busca de da iluminação, mantendo uma disciplina rigorosa na caverna, Tenzin Palmo viveu dos 33 aos 45 anos. Eram 12 horas de meditação por dia, das 3h às 22h, com pausas para as refeições, banho de baldinho e lavagem de roupas. A alimentação era pouca e simples: armazenava  grãos e vegetais desidratados, que eram entregues no verão por um amigo, e plantava batata e flores no pequeno jardim em frente à caverna. Fome, mal-estar, algumas doenças e uma grande avalanche – chegou a ficar soterrada, ela achou que ia morrer e fez as praticas budistas para o momento final –  não a fizeram desistir de seu retiro. Saiu da caverna forte, pronta para mudar a história.

Tá com medo?

Tenzin nunca comprou a história de que o corpo da mulher é inferior e incapaz de alcançar a iluminação. Para ter certeza do que sempre soube, foi pesquisar direto na fonte. “O Buda não discriminava os sexos, ele tinha monjas e alunas mulheres. Com o passar do tempo, a vida monástica ficou mais centrada em grandes escolas, e o medo do feminino se pronunciou”. A inglesa, então, questionou o que ninguém antes teve coragem de pensar. “As monjas acreditam que os homens são mais inteligentes. Mas acham isso porque as pessoas que conhecem com educação, ou seja, sabem ler e têm algum grau de instrução, são homens. Se elas tivessem as mesmas oportunidades, elas fariam melhor ou igual”, dispara, e conta que, na história do budismo, as mulheres não receberam a mesma educação, não tiveram acesso aos mesmos ensinamentos e, em alguns casos, trabalhavam como empregadas nos monastérios.

Não à toa, o Dalai Lama, maior autoridade budista e líder espiritual do Tibete, chorou ao ouvir um discurso de Tenzin Palmo sobre as dificuldades das mulheres na religião. Ele é, atualmente, um dos grandes simpatizantes de seu trabalho. “Você é muito corajosa”, declarou publicamente, no Primeiro Encontro de Budistas Ocidentais, na Índia, em 1993. “Podemos usar tudo que nos faz sofrer como aprendizado. O sofrimento só existe se você o tratar assim”, ensina a monja.

Em 2000, ela encarou mais um grande desafio, começou a  construir o Dongyu Gatsal Ling, em Himachal Pradesh, no norte da Índia, um monastério pioneiro para mulheres no país, onde atualmente vivem 70 monjas com idades entre 15 e 25 anos. Diferente dos demais monastérios para mulheres existentes até então, lá as alunas têm acesso a uma boa educação formal e aulas com grandes mestres do budismo. Provam uma rotina intensa, parecida com a que Tenzin tinha em sua caverna. O dia começa ainda à noite, com uma sessão de práticas espirituais, estudos com grandes mestres e termina com ioga e meditação. As moças, que têm pouca educação ou são analfabetas, passam por um ciclo de estudos formais no qual entram tibetano, inglês, filosofia. Aprendem também tocar instrumentos e a fazer as esculturas tradicionais usadas nos rituais. Além disso, ficam três meses em retiro todo ano, tempo em que permanecem em absoluto silêncio.

Diante dessa mulher cheia de histórias, conquistas e vivências, me ocorre perguntar o que as reles mortais – como eu, você e todas as outras que não são mojas nem se dedicam a práticas de auto conhecimento –  podem fazer para conquistar a tão sonhada liberdade. E ela manda: “A mulher de hoje acha que é livre, mas não é. Se identifica com a aparência externa, passa a vida tentando se transformar numa Barbie”. Não, Tenzin Palmo não acha errado se cuidar, se arrumar, se gostar. O equívoco, segundo ela, é achar que você é o que vê no espelho, o que está fora. “Além disso, tentar parecer eternamente jovem é patético. Envelhecer é natural, a idade traz compreensão. As rugas são a sua expressão, sua história de vida, por que se desfazer disso?”. Olhando no fundo dos meus olhos, a monja dá o conselho mais simples: “Aceite-se do jeito que é e aproveite isso. Se você ler os ensinamentos do Buda, ele ensina que você deve aprender a ter amor e compaixão por você mesmo e, assim, estender isso aos outros. Se você não se trata bem, como vai conseguir tratar os outros bem? Isso não é ser egoísta, é ser prático”.

Do alto de sua careca, essa mulher que pouco se preocupa com as aparências transcende belo e feio, bom e ruim. E mostra que, por trás de suas rugas e marcas, encontra-se a beleza e a verdade de uma vida marcada pela coragem e pelo altruísmo.

TPM+: Quer saber mais sobre o templo de Tenzin Palmo? Detalhes no

http://revistatpm.uol.com.br/revista/97/perfil/veneravel-careca.html

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Reciclagem de primeira

In Revista Vida Simples on February 16, 2011 by Elka Andrello

Texto publicado na Revista Vida Simples em novembro de 2010

Figura tranquila, o tibetano designer de tapetes Pasang Tsering trabalha com técnicas ancestrais de tecelagem e design típico da região do himalaia. Diz que faz arte para deixar as pessoas felizes: “arte é um feriado para a mente”. Designer de tapetes com 30 anos de experiência, nasceu em Lhasa, capital do Tibete, e aos 6 anos fugiu com o avô de caminhão pela gelada cordilheira do himalaia para Kathmandu, no Nepal. O ateliê de Pasang Tsering coleta tecidos e tapetes velhos que virariam lixo e demorariam décadas para se decompor na natureza e, com ajuda de uma pequena equipe de mulheres nepalêsas, pacientemente desfia e fia novelos monocromáticos. A linha então vai para o tear e se transforma em novas formas, estampas e muitas cores. Na sua alegria e simplicidade ele não tem a menor idéia que está na onda do upcycling! Na cabeça dele está apenas fazendo algo que lhe parece de bom senso e bom gosto.

Upcycling é uma nova fronteira no processo de reciclagem. São soluções criativas que transformam materiais que não teriam outro destino a não ser o lixo, em produtos de melhor qualidade ou maior valor comercial, sem passar por processos  químicos de reciclagem. O termo foi usado pela primeira vez em 1994, na Alemanha, por Reiner Pilz da empresa Pilz GmbH, durante uma entrevista em que ele declarou que precisávamos reciclar os produtos em algo de maior valor. Desde então, o upcycling vem ganhando espaço, seja na indústria da moda com marcas como a Prada que esse ano lançou uma coleção com tecidos reaproveitados, na TV no reality show Garbage Moguls  da National Geographic, em peças de design, artes e onde a criatividade chegar.

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SEBASTIÃO SALGADO

In Textos Folha de São Paulo on May 28, 2010 by Elka Andrello Tagged: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Sebastião Salgado, um dos fotógrafos mais premiados do mundo, se destaca também em trabalhos voluntários. É colaborar de várias ONGs e projetos sociais como Médicos Sem Fronteiras, Repórteres Sem Fronteiras, Organização Mundial de Saúde (OMS),  International Organization of Migration e Save the Children. Ele também é criador do Instituto Terra, ambicioso projeto de recuperação ambiental no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais.  Representante Internacional da Unicef, atualmente fotografa a campanha pela erradicação mundial da poliomenite.

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Doutor em economia, só virou fotógrafo profissional aos 29 anos de idade. Clicou para importantes agências de fotografia como Sygma e Gamma e foi membro da Magnum Photos, cooperativa internacional de fotógrafos, que incluía, entre outros, o papa Cartier Bresson. Fotógrafo engajado, Salgado se dedica a projetos pessoais como “Êxodos”, que mapeia as correntes migratórias no planeta e “Terra: Luta dos Sem Terra”, sobre a luta pela terra no Brasil e “Trabalhadores”, sobre o fim do trabalho manual em grande escala no mundo. Mora e trabalha em Paris, na França, onde dirige a agência de imprensa fotográfica Amazona Images.

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Folha – Para realizar o projeto Êxodos o senhor viajou por sete anos para documentar a migração de milhares de pessoas em situação de pobreza em 41 países. Como foram as “exposições sociais” de Êxodos em lugares como favelas e como é o projeto educacional resultante desse trabalho?

Sebastião Salgado – É bom responder isso porque saiu muita matéria na imprensa sobre a exposição em “lugares tradicionais” mas não foi falado das “exposições sociais”, como em assentamentos de sem terra e favelas. Para esses lugares organizamos uma exposição resumida com 60 fotografias e fizemos posteres de excelente qualidade dessas fotos, que ficaram tão bons quanto ampliações fotográficas. Essas “exposições sociais” aconteceram em vários países e em cada um foi adaptado de acordo com o público do lugar. No Brasil milhares de crianças tiveram a oportunidade de ver. Uma cartilha didática com informações obtidas nesse trabalho foi distribuída para igrejas e educadores. O resultado disso foi que mais de três milhões de pessoas que não têm acesso a cultura viram a exposição no Brasil.

Folha – O Instituto Terra é um projeto de recuperação da mata atlântica e educativo que funciona em terras que já foram da sua família. Como está o projeto hoje?

Sebastião Salgado – É o maior projeto de recuperação ambiental do Brasil. Eu e a Lélia , minha companheira, compramos essas terras e há onze anos trabalhamos nesse projeto. São 168 hectares em Minas Gerais no Vale do Rio Doce, com mais de 310 mil árvores plantadas. A projeção é de plantar 1.200 mil árvores. O Instituto Terra é uma ecologia social, não é focado só na recuperação de árvores e insetos, o homem é o centro.  Criamos escolas que chamamos de Centro de Formação para educar proprietários rurais, trabalhadores rurais, professores, o prefeito. Levamos para os proprietários rurais a idéia de cooperativa, para conseguir linha de crédito no campo, e dessa maneira trazer uma alternativa de produção. Ensinamos aos moradores a construir latrinas, plantar pomar, que é uma coisa que não existe mais. Não dá para recuperar a natureza sem conscientizar o ser humano. E o problema não é só plantar mas monitorar, transformar em técnologia. Não existe nenhum estudo para isso. Estamos reflorestando áreas completamente devastadas. Essa terra é da natureza e não minha e da Lélia.

Folha – O que o senhor acha de ONGs qua trabalham com ecologia como o Greenpeace?

Sebastião Salgado – É outra história. Organizações como o Greenpeace são políticas e também fazem um trabalho muito importante. Já o Instituto Terra faz um trabalho na base. Os dois tipos de atuação são muito importantes, não acho que um seja superior ao outro, mas como têm poucas organizações com o perfil do Instituto Terra acho que deveriam ter mais fazendo um trabalho na base.

Folha – Atualmente o senhor está fotografando pela Unicef a campanha mundial pela erradicação da Poliomenite. Como está essa ação?

Sebastião Salgado – É uma campanha brilhante. A Unicef compra as vacinas com doações de organizações como o Rotary Clube, que é o principal doador, eles fazem um trabalho de formiguinha arrecadando dinheiro em sedes do Rotary em cidades pequenas, inclusive no interior do Brasil. A Organização Mundial de Sáude (OMS) vacina as pessoas. Estamos num momento importante da campanha. Agora chegou no fim da pólio, vai ter vacinação até o fim de 2002 e vamos observar por mais de três anos se não tem mais nenhum caso da doença para em 2005 anunciar a erradicação mundial da poliomenite. Quando isso acontecer os governos não vão precisar mais vacinar ninguém pois a única maneira de transmissão é pelo ser humano.  Por isso que ainda se vacina em lugres onde a doença está erradicada como no Brasil, pois enquanto tiver uma pessoa afetada existe o risco de contrair a doença.  As fotos da campanha vão ser publicadas num livro que sai no ano que vem na França e em outros países, por enquanto não tem nenhuma editora fechada no Brasil. No dia 14/05 será lançada uma campanha na internet em que qualquer pessoa pode fazer doações através do site http://www.endofpolio.org.

Folha – O senhor está preparando novas exposições?

Sebastião Salgado – Estou preparando uma série como foi o “Êxodos” com as fotos da campanha pela erradicação do poliomenite. Estou preparando também uma retrospectiva dos meus 30 anos como fotógrafo com as minhas fotos do ponto de vista político. Fui muito criticado no início da minha carreira e devido o jeito que o mundo está hoje as pessoas agora reconhecem o valor do meu trabalho. Mesmo as minhas fotos mais antigas são atuais. Esse exposição vai acontecer em Washington em dezembro de 2003.

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PROJETO GRAEL

In Textos Folha de São Paulo on May 28, 2010 by Elka Andrello Tagged: , , , , , , , , ,

O velejador Leonardo Rodrigues, 13, levou a taça de Campeão Estadual Estreante para orgulho dos treinadores , ninguém menos do que os super campeões olímpicos, os irmãos Grael. O lobinho do mar é um dos 3.500 velejadores formados pelo Projeto Grael, projeto social criado pelo recordista brasileiro de medalhas olímpicas e pentacampeão da vela Torben Grael, 41, o campeão olímpico Lars Grael, 36, Axel Grael, 43, e por Marcelo Ferreira, 35, dupla de Torben.

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O projeto tira a garotada da rua e “joga na água”, desde 1998 em Niterói, RJ e desde 2000 em Vitória, ES. “Sempre fui inconformado em praricar um esporte dito de elite. Um fim social vem sendo atendido com esse projeto ao levar o conhecimento da cultura náutica para quem nunca teve acesso ”, diz Lars Grael. As crianças saem do projeto preparadas para trabalhar como marinheiros em barcos de pesca e de recreio.

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Embora o objetivo principal não seja formar atletas, os alunos com melhor desempenho são encaminhados para a equipe de competição do projeto e a clubes náuticos. Outros campeões são os lobinhos do mar Porfírio Inácio, 14, que levou o vice-campeonato estadual estreante no Rio de Janeiro, e Patrick Penha, 13, que fez bonito no Campeonato Mundial de Hobie Cat 16, nas águas do Oceâno Pacífico. Ele levou o sétimo lugar enfrentando ventos de 50 km/h como dupla do iatista veterano Luiz Gonzaga Machado, 55.

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Para participar do projeto, os meninos e meninas devem ter de 9 a 14 anos, estar matriculados numa escola pública e trazer um atestado médico. Esse pré-requisito faz com que as crianças coloquem a vacinação em dia. Logo de cara são avaliados se sabem nadar. Como a maioria não arrisca nem sequer o nado de cachorrinho, o projeto criou uma escolinha de natação, que funciona como um primeiro estágio do aprendizado. Quando estão craques nas braçadas, os alunos são promovidos para o curso básico de vela. Depois de quatro meses de aulas teóricas e práticas a garotada sai fera na arte de dar nós de marinheiro, posição do vento, como montar , velejar e desvirar o barco Optmist, barco leve projetado para crianças. “Esse aprendizado gera auto-confiança. É um esporte de decisão, estratégico, é ele e o mar. Aprende a usar as variáveis como correntes e ventos a seu favor”, diz Axel Grael.

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Quem vai bem, passa para o estágio avançado e tem mais quatro meses para aprender regras de navegação mais sofisticadas e aperfeiçoar o estilo de velejar. Missão cumprida, o lobinho do mar sai com carteira de veleiro amador, dada pela Capitânia dos Portos, a primeira habilitação que uma criança pode tirar. “A criança sai desse estágio preparada para trabalhar como marinheiro. Sabem até fazer costuras em cabos, coisa que apenas um bom marinheiro sabe. Tem espaço no mercado de trabalho, alguns chegam a ganhar até U$2 mil por mês”, diz Cintia Knoth, 39, professora de vela do projeto.

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Além de aprender a velejar e a cuidar de um barco, os pimpolhos aprendem noções de primeiros socorros e resgate, a pescar com linha, rede e tarrafa e a cozinhar. O menu é simples: peixe na brasa. Ecologia é inerente ao curso, “Fazemos caminhadas para catar lixo e quando pescamos um peixinho pequeno que não serve para comer, ensinamos a soltar”, diz Cíntia. “Eles aprendem a interpretar a natureza, os ventos as nuvens, e transferem essas informações para a vida”, diz Axel. “Perdi todos os meus medos. Tinha muito medo de velejar depois fui até para o campeonato estadual no ano passado. É muito bom fazer um esporte no mar”, concorda Luciana Oliveira, 13, quatro anos no projeto.

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HERÓI – COVEIRO E VIGIA ABRIGAM PACIENTES COM AIDS

In Textos Folha de São Paulo on May 25, 2010 by Elka Andrello Tagged: , ,

Nomes: José Cruz Matos/Fernando José da Silva Filho

Identidades verdadeiras: coveiro/vigia

Disfarces: presidente da Associação Resplendor/vice-presidente da Associação

Missão: amparar soropositivos

Poderes especiais: carinho e dedicação

Acessórios: luvas, máscaras e coquetel de remédios

Inimigo: o preconceito

O coveiro José Cruz Matos, 45, e o vigia de escola Fernando José da Silva Filho, 36, oferecem teto e cuidado a 18 pacientes soropositivos largados no mundo. Na casa, vivem os três filhos biológicos e dois adotivos de Cruz, os pacientes e um papagaio, distribuídos em três quartos, três banheiros, cozinha e refeitório. A casa fica numa favela no Parque Santo Antônio (zona sul de SP) e está sendo ampliada para atender mais 14 soropositivos. “Com o jeitinho brasileiro, cabe mais”, diz o coveiro. Leia abaixo.

Folha – Como você iniciou esse trabalho?

José Cruz Matos – Comecei a ter contato com a doença por causa de um primo. Ele ficou doente, e as pessoas se afastaram dele, até a família. Quando ele faleceu, em 1998, eu fiquei tocado e quis fazer algo mais pelos soropositivos. Hoje a minha família é voluntária aqui.

Folha – Vocês recebem qualquer paciente?

Fernando – Mulher, travesti e homem com alta do hospital e que não têm para onde ir.

Folha – Por quanto tempo eles ficam?

Matos – Quando o paciente fica bom, vai tocar a vida. A casa de apoio não é para o cara ficar esperando morrer. A gente ensina a tomar os remédios e ajuda a ficar independente. Quando a família não aceita, a gente vai conversar. Tem muitos que são HIV e homossexuais. Sofrem dois preconceitos juntos. A idéia da casa é amparar. Não queremos que fiquem na rua revoltados, transmitindo a doença.

Folha – Como os pacientes chegam aqui?

Fernando – Os hospitais encaminham, tenho o registro da casa de amparo.

Folha – Vocês sabem prestar primeiros socorros?

Fernando – Fizemos curso de atendente.

Folha – Como vocês sustentam a casa?

Fernando – Eu ganho uns R$ 300, e o Zé, R$ 400, e tudo é usado aqui. A igreja ajuda com cesta básica, e um supermercado dá frutas e legumes passados. Um grupo de senhoras da Vila Mariana chamado Grão de Areia ajuda com alimentos.

Folha – O que vocês mais precisam?

Matos – Produto de limpeza, mistura para comida, remédios para o dia-a-dia, luvas e máscara. O coquetel, o governo dá.

Folha – Qual o sonho de vocês?

Matos – Ter a casa pronta e ambulância.

Folha – Como é viver aqui?

Marco Antônio de Oliveira, “Marquete” – Tem os horários da alimentação, e os remédios são controlados. Se morasse sozinho, não estaria seguindo o tratamento. Tem horário para entrar e sair. É como se fosse a casa do pai e a gente fosse menor.

Ivaldo José da Silva, “Renata” -Estou aqui há oito meses. Encontrei amor e carinho. Um soropositivo dá apoio ao outro.

Folha – Onde você estaria se não fosse aqui?

“Marquete” – No mundo das drogas… Talvez espalhando mais a doença.

Folha – Você sente falta de alguma coisa?

“Marquete” – Tenho vontade de namorar, mas a gente paquera.

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HERÓI – FERRÉZ

In Textos Folha de São Paulo on May 25, 2010 by Elka Andrello Tagged: , , ,

Nome: Ferréz, 25

Disfarce: escritor

Missão: levar cultura para os moradores do Capão Redondo, zona Sul SP

Poderes especiais: mostra a realidade da periferia

Armas: palavras

Acessórios: livros, caneta, papel

Inimigos: injustiça social

O escritor Ferréz, leitor de histórias em quadrinhos, livros de ufologia e de autores clássicos como Maxim Gorki, Herman Hass e Gustave Flaubert, driblou a falta de oportunidade na periferia e o ensino para lá de ruim e hoje se destaca como um escritor, que com muito talento, leva a triste realidade dos excluídos para a casa das pessoas. O seu romance de estréia “Capão Pecado” conta na lata a realidade cruel da periferia para quem tiver coragem de ler. Ferréz quando não está escrevendo se dedica `a “1 da Sul” , movimeno cultural criado por ele no Capão Redondo, um dos lugares mais violentos do mundo. O movimento, entre outras coisas, apresenta os livros para quem acha ler uma chatice.

Folha – Quando você começou a escrever?

Ferréz – Aos 12 anos. Eu gostava de ler revistas em quadrinhos e escrevia contos e poesias. Fiz um fanzine de humor que  eu escrevia, editava e distribuía. Gastava mais do que ganhava. Aos 16 anos comecei a ler livros porque os quadrinhos acabavam muito rápido.

Folha – Quais são seus autores favoritos?

Ferréz – Herman Hass, Gorki, Flaubert. Dos autores nacionais eu gosto do João Antônio, que não é muito conhecido, e do Plínio Marcos. São escritores da linha que eu chamo de literatura marginal. O João Antônio era muito fã do Lima Barreto, todos os livros que ele escreveu ele dedicou a ele, e no fim da vida alugou um apartamento onde o Lima Barreto morou e morreu lá.

Folha – O que você tem lido recentemente?

Ferréz – Estou lendo cinco livros de ufologia. Não gosto de ler livros que falam sobre o que eu escrevo para não misturar. Não preciso ler sobre a favela , eu moro aqui. Leio para me distrair.

Folha – Como você fazia para comprar livros?

Ferréz – Eu comprava livros em sebos. Acho biblioteca ruim. Gosto de ter para usar de referência e mostrar para outras pesoas.

Folha – Você lia na escola?

Ferréz – Os professores não estimulavam a leitura. Ao contrário, eles eram desinformados. Eu perguntava para eles dos druídas e eles quase não sabiam nada. Aí eu escrevia contos sobre os druídas baseado no que eu achava.

Folha – Como é a escola na periferia?

Ferréz – É um lixo. Os professores são mal informados e o aluno não procura informação. Ele não se valoriza e não acredita nele. Acho que eu sou defeito de fabricação. O que me salvou foi comprar livro , ver documentário e escrever. Enquanto todos os meus amigos saíam `a noite para curtir eu ficava em casa vendo documnetário na tv. A cultura me salvou.

Folha – Onde você escreve?

Ferréz – Escrevo sempre em caderninho e depois passo para o computador. Escrevo onde estou, na frente do micro parece que as idéias somem.

Folha – Quantos livros você escreveu?

Ferréz – Dois. O meu primeiro livro chama “Fortaleza da Desilusão”, que nunca saiu em livraria, e “Capão Pecado”. Quando comecei as pessoas perguntavam onde elas estavam no livro. Percebi que elas queriam aparecer. Contava como estava ficando e meus amigos pediam para colocar eles com uma “mina da hora”, como jogador de futebol, vencendo na vida. Eu falava que estava escrevendo do jeito que as coisas são. Aí eles diziam que se fosse assim só ia ter desgraça. O livro é uma colcha de retalhos. Escrevi com raiva tomamando café `a noite.

Folha – Quanto tempo você demorou para escrever “Capão Pecado”?

Ferréz – Demorei quatro anos. Escrevi todo a mão. Quando estava pronto alagou a casa e perdi o original do livro que ficou molhado. Peguei os rascunhos e reescrevi tudo.

Folha – Você tinha emprego?

Ferréz – Fiquei três anos sem trabalhar. Procurei emprego de tudo, até de faxineiro, mas eles não aceitaram porque eu tinha o segundo grau e era muito qualificado. Para outros empregos melhores eu era desqualificado. Não tinha dinheiro para nada, tinha que passar por baixo da catraca dos ônibus e me virava fazendo bicos. Nas minhas primeiras entrevistas apareci nas fotos sempre com a mesma camiseta.

Folha – Você faz trabalhos na comunidade?

Ferréz – Tenho um projeto cultural chamado “1 da Sul Capão SP”, desde primeiro de Abril de 1999. Surgiu como uma brincadeira do dia da mentira. Falei para os meus amigos que eu tinha um movimento cultural. Eles acreditaram. Aí eu falei que era brincadeira e que o movimento era com eles também e que era só a gente fazer. Deu certo. Na páscoa desse ano nós distribuímos 600 ovos de 200 gramas para as crianças daqui, comprados com o nosso dinheiro. Deixei de comprar um fusquinha e outra máquina. Não tem comparação. O moleque de tão pequeno que mal conseguia segurar o ovo me olhando e falando tio obrigado.

Folha – Como funciona o “1 da Sul”?

Ferréz – Já fizemos palestra na Febem e vamos em escolas da periferia para estimular as pessoas a ler. Eu conto a história da Madame Bovary como se ela fosse minha amiga na França. No final eu conto que li em um livro sem sair do Capão. A escola não estimula o gosto pela leitura. Eu tenho amor pelos meus livros, sei da história do autor, se morreu, como morreu.

Folha – O que mais vocês fazem?

Ferréz – Montamos uma biblioteca na garagem em baixo da casa. Funciona como uma loja. Tem livros para empréstimo, tem camisetas com frases de livros que a gente manda fazer e cds `a venda. 20%do dinheiro da loja vai para o movimento cultural, 20% para o cara que trabalha comigo, e o resto vai para a loja. Sobra pouco para  mim.

Folha – A “1 da Sul” tem projetos comerciais?

Ferréz – Dentro da “1 da Sul” tem uma divisão que vai virar uma empresa chamada Marco Zero Ilustrações. Vão fazer aerografia em tudo, no computador, na moto, no capacete. Qualquer projeto visual eles fazem.

Folha – Você trabalha em mais algum lugar?

Ferréz – Hoje trabalho com o projeto, estou escrevendo o meu próximo livro “Manual Prático do Ódio” que vai sair no ano que vem, tenho uma coluna na revista Caros Amigos e escrevo para um site na internet chamado NO.com.

Folha – Quantas cópias do “Capão Pecado” foram vendidas?

Ferréz – Já vendi cinco mil cópias. A editora me paga de três em três meses. Ganho 8% de cada livro.  Nesse país compensa mais vender livro do que escrever. Doei  quase todo o dinheiro que recebi. Patrocinei um cd e a divulgação e o restante ficou para fazer a Literatura Marginal.

Folha – O que é a Literatura Marginal?

Ferréz – É um projeto que só vai vender em banca de jornal. É contra livraria, quem compra essa literatura não entraria em uma livraria. É feito por autores considerados marginais. O projeto é um livro e um cd. São 16 artistas envolvidos, músicos e escritores. Na parte do cd tem o Gog, que é um rapper de Brasília, o Dexter do 509 E, o grupo Ortraversão e outros caras. Na parte da literatura tem o escritor Paulo Lins, Sérgio Vaz e eu. Cada um faz o que quer. Escreve conto, poesia, letra de música. Sai no segundo semestre.

Folha – Por que você se dedica a projetos como esses e aplica todo o seu dinheiro nisso?

Ferréz – O salário do pecado é a morte. Os caras viram artistas e ficam vaidosos. Não quero entrar nessa de artista. Procuro fazer a minha parte. Olhar o meu irmão do lado e não deixar ele ser um espelho quebrado sem imagem, que não reflete nada. Já vi muito espelho quebrado. Gente que tem sonho e não vai atrás. Quem não tem appoio nem da mãe. Tem que dar estímulo. Não vou fazer oficinas, não quero bater na mesma tecla. Acho infrutífero todo mundo dentro de uma sala. Me tem e depois não tem mais. Tem que prosseguir. A minha parte é isso. Não dá para ajudar muito mas dá para ajudar um pouco. Vivo só disso. Não tenho vida própria. É um estilo de vida.

Folha – Como você se sente no meio de tanta injustiça social?

Ferréz – Só quem está passando pelo sofrimento vai saber enfrentar a guerra quando ela chegar. Cada moleque no farol que passa despercebido volta com o estilete amanhã. Ou olha para o outro ou ele vai querer o que você tem. É foda viver num país que tem uma tv que não mostra o seu povo. Inaugurou em São Paulo a joalheria Tiffany lotada  e desse lado tem gente tomando sopa de farelo porque não tem o que comer. Eu tenho raiva.

Folha – O “Capão Pecado” vai virar filme?

Ferréz – Tem gente de Hollywood, alguns produtores do “Exterminador do Futuro 2” e do “Platoon” interessados em comprar os direitos autorais do livro para fazer um filme. Tem cineasta brasileiro que não teve coragem de filmar a história porque achou muito violenta. Acho legal esse reconhecimento mas se for rolar vamos sentar e conversar muito antes. Se virar filme uma porcentagem vai ter que vir para o pessoal do Capão Redondo, para os projetos daqui.  Prefiro não ficar pensando muito nisso. O que vai acontecer com o livro está marcado na história da vida. O livro foi feito com muito sofrimento e vai até onde o sofrimento chegar.

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CARLOS MIELE VAI ÀS COMPRAS

In Textos Folha de São Paulo on May 25, 2010 by Elka Andrello Tagged: , , ,

O estilista Carlos Miele, que recentemente levou suas criações da grife M.Officer para as passarelas londrinas, foi convidado por esta coluna a fazer umas comprinhas no Bazar Beneficente Esperança, da ONG CCCA (Centro Comunitário da Criança e do Adolescente). A loja é resultado do Projeto Bazar, uma das atividades profissionalizantes da ONG, que ensina jovens de 15 a 17 anos a trabalhar no comércio. Eles aprendem o pacote completo no curso: de transações bancárias a corte e costura e atendimento ao cliente. Criada há 16 anos a ONG já atendeu 850 crianças em situação de pobreza.

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Depois de averiguar todas as peças da loja, o estilista desembolsou R$ 62 por duas calças e uma blusa. O melhor veio em seguida. Ofereceu sua equipe da M.Officer para desenvolver um projeto de arquitetura, reformular a programação visual dentro e fora do lugar e trocar a iluminação. Prometeu também doar estoques de suas coleções e ministrar aulas de bê-á-bá de vendas.

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A loja deve estar de cara nova até o Natal. “É preciso fazer um mix de produtos que esteja de acordo com o público a ser atingido. Também é legal pensar em promoções, fazer vitrines sazonais e facilitar a forma de pagamento. A loja tem potencial e pode melhorar”, diz Miele. Com a reforma, eles esperam aumentar o rendimento, que hoje é de até R$ 400 por dia, usados para bancar os custos da loja e parte das despesas da ONG.

A “Coluna Social” toda semana leva uma personalidade para colaborar com um projeto social.

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LER DIMINUI A VIOLÊNCIA

In Textos Folha de São Paulo on May 25, 2010 by Elka Andrello Tagged: , , , , ,

José Maria Machado de Assis era pobre, gago, epilético, não frequentou a escola e  vendia balas na rua para a tia doceira, mas a vida dele ainda era melhor do que a destas crianças, diz o escritor Marcelo Duarte. As crianças em questão são carentes da região do Embu-Guaçu (zona sul de São Paulo), para as quais Marcelo leu histórias durante toda uma tarde no projeto social Casa da Paz.

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Sua oficina de literatura, há um ano, tenta quase o impossível: fazer as 75 crianças trocarem a televisão por livros. “Existe TV e vídeo na casa delas, mas não há livro na vida dessa garotada”, desabafa Simone de Lemos, voluntária coordenadora do projeto.

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A Casa da Paz está apresentando aos alunos os autores brasileiros por região. No momento, estão no sul, estudando Érico Veríssimo. O próximo autor da fila é Machado de Assis. Simone acredita que o ibope vai ser maior, já que a história de vida de Machado tem vários pontos em comum com a realidade dessas crianças.

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E, para dar uma turbinada no espírito literário, a Casa da Paz está montando uma biblioteca. Marcelo Duarte colaborou com livros infantis da sua editora, Panda. Engajada, ela dedica parte da sua produção a obras com preocupação social, algumas com direitos revertidos a projetos do bem. “Ler é legal, faz você pensar, ter senso crítico, diferentemente da TV. Pensar e se expressar é um jeito de exercer a cidadania. Pessoas ignorantes não sabem argumentar e partem para a briga. Ler diminui a violência”, diz.

A “Coluna Social” toda seman leva uma personalidade para colaborar com um trabalho comunitário.